Angela Natel On sexta-feira, 28 de abril de 2017 At 10:33
Angela Natel On terça-feira, 25 de abril de 2017 At 13:06




Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), os tais são definidos nos seguintes termos:
“Toda pessoa que por causa de fundados temores de perseguição devido à sua raça, religião, nacionalidade, associação a determinado grupo social ou opinião política, encontra-se fora de seu país de origem e que, por causa dos ditos temores, não pode ou não quer regressar ao mesmo”. (in acnur.org)
Sempre houve refugiados perambulando pela história da humanidade. Fome e guerra sempre produziram movimentos humanos em busca de proteção, sustento e paz. Na história recente, a preocupação com essas movimentações étnicas, ganha contornos oficiais em 1938, com a criação pela Liga das Nações do Comitê Intergovernamental para os Refugiados. Este comitê tinha o propósito de garantir a segurança dos fugitivos oriundos dos territórios ocupados pela Alemanha. Antes da 2ª guerra já se contabilizava 600 mil exilados pelo regime nazista e após a guerra, já se fazia as contas de mais de um milhão. Em 1956, a revolução húngara provoca o movimento de mais de 200 mil pessoas. A revolução na Namíbia em 1966 provoca o exílio de 41 mil que só retornam para casa em 1989. Em 1991, mais de um milhão deixa o Kosovo durante os ataques da OTAN. Mais recentemente, as guerras no Oriente médio (principalmente com o surgimento do Estado Islâmico) provocaram o movimento de milhões, sem contar os recentes casos desastres naturais.
Apenas depois de duas grandes e horríveis guerras mundiais, é que através da ONU esses refugiados receberam o status devido e que se procurou definir tratados internacionais para recebê-los. Porém, o episódio conhecido como 11 de setembro adicionou um componente mórbido ao assunto: dependendo da raça, origem ou religião, o refugiado poderá não ser admitido com tal por suspeita de conexão com o terrorismo. Isso ocorre por causa de alguns termos muito ambíguos que definem essas suspeitas e por causa disto, como disse Rosita Milesi “... aumentou-se o número de terroristas e reduziu-se o de refugiados!" (Milesi, 2003).
Segundo o Comitê Nacional para Refugiados (Conare), o número de refugiados no Brasil ultrapassa os 4,4 mil. Este número é estranho, já que se estima haver 250 mil ciganos instalados no Brasil, mas que por algum motivo não são considerados como refugiados apesar de na prática também não serem considerados naturais. Afinal, são o que então? No mundo, o número chega a ultrapassar a marca de 15 milhões de pessoas que não podem usufruir do direito de viverem em seus lares e ao lado de seus parentes e compatriotas. Antônio Carlos Nasser classifica-os da seguinte maneira:
“Repatriados: Os que voltam para seus lares, geralmente quando um conflito termina e um grau de estabilidade é restaurado;
Deslocados Internamente: São os que são forçados a fugir. Eles seguem as razões de um refugiado, mas permanecem em seu próprio país;
Requerentes de Asilo: São os que fogem de seu próprio país e procuram proteção num outro. Reconhecidos como pessoas aceitas pelo “país asilo”, receberão proteção legal para viver;
Reassentados: Refugiados que são recebidos por outro país que não é o primeiro de refúgio.”. (Nasser, 2005)

Como a Bíblia trata a questão do Refugiado?


A começar pela lei judaica, a Bíblia trata da questão do estrangeiro e dentre outros textos, três versículos são exemplares:
“Não maltratem, nem persigam um estrangeiro que estiver morando na terra de vocês. Lembrem que vocês foram estrangeiros no Egito.” (Ex  22.21);
“Eles devem ser tratados como se fossem israelitas; amem os estrangeiros, pois vocês foram estrangeiros no Egito e devem amá-los como vocês amam a vocês mesmos. Eu sou o SENHOR, o Deus de vocês.” (Lev 19.34);
“Não maltratem os estrangeiros que moram no meio de vocês. Vocês sabem como eles sofrem por serem estrangeiros, pois vocês foram estrangeiros no Egito.” (Ex 23.9);
Algumas considerações são importantes para entender a orientação de Deus sobre o tratamento aos refugiados:
A necessidade da força de lei: não era somente uma recomendação, mas o direito do refugiado deveria estar garantido. É importante destacar que o tratamento digno ao estrangeiro não é considerado um favor prestado, mas como uma obrigação do povo de Deus;
Uma questão de caráter: a maneira como os israelitas tratavam o necessitado (incluindo os refugiados), deveria refletir o próprio caráter de Deus;
Eles deveriam “... ser tratados como se fossem israelitas”, ou seja, não deveriam ser tratados como cidadãos de segunda classe ou marginalizados de qualquer maneira;
É recorrente a lembrança de que eles mesmos haviam sido refugiados no Egito e depois no deserto, ou seja, se havia um povo que saberia acolher um refugiado, esse povo deveria ser Israel.
O cuidado de Deus com os oprimidos e desfavorecidos contempla também aqueles que estão longe de suas origens e por algum motivo refugiados entre Seu povo. Israel era o instrumento de Deus para alcançá-los e ajudá-los e por isso deveriam cuidar dessas pessoas.
Uma questão merece um comentário: as Cidades de Refúgio (Números 35.1-34). Essas cidades levíticas eram determinadas para receber pessoas que supostamente haviam assassinado alguém e que precisavam de proteção contra a vingança da família da vítima. A intenção era garantir um julgamento justo para o réu. Esse benefício se estendia aos estrangeiros também (35.15).
Em muitos países, o cidadão não tem garantias de julgamento justo e muitas vezes, as condenações têm motivações políticas e religiosas. Devemos oferecer a essas pessoas a oportunidade de ser julgadas retamente e por isso, o asilo deve ser sempre oferecido. Não deve, porém, ter a intenção de proteger o criminoso, mas de lhe garantir tal julgamento com equidade. Por isso, juntamente com o tratamento digno ao refugiado, o país deve manter com as demais nações, tratados de extradição adequados.
Uma boa maneira de entender também como a Bíblia trata do assunto do refugiado é observando alguns casos tópicos nela descritos:
Refugiados Ambientais – São aqueles que, por motivo de prolongadas secas ou alagamentos, ou desastres naturais de qualquer ordem, se veem obrigados a deixar seu lugar e se refugiar em outro. Dois casos na Bíblia são exemplares: A descida da família de Jacó ao Egito (Genesis 42 a 45) e Elimeleque e sua família (Rute 1.1-3).
O primeiro caso é bem ilustrativo, pois apesar de serem bem recebidos a princípio, quando a situação política mudou acabaram se tornando escravos. Em todos os momentos da história em que a realidade política sofre alterações, os menos favorecidos são os que mais sofrem e dentre eles, os estrangeiros. Muitas vezes, fugindo de perseguição em seus países de origem, acabam por sofrer a mesma situação ou coisa pior no país que o acolheu, e se veem obrigados a fugir novamente.
No segundo caso, a família de Elimeleque resolve deixar seu país por causa da fome e encontram em Moabe um contexto rural, semelhante ao seu. Porém, apesar de aparentemente ter conseguido se estabelecer bem, uma grande tragédia acomete a família e Noemi, agora viúva, encontra-se sozinha com as duas noras também viúvas. A solução encontrada era o apoio e a segurança da família no país natal, já que a fome já não era mais um problema por lá. Mesmo que alguns consigam se estabelecer, o refúgio a princípio deve ser sempre encarado como uma situação provisória e que o contexto no país de origem que resultou na fuga pode mudar. Voltar para casa é uma alternativa que deve ser sempre considerada, pois a proteção da família é sempre a melhor condição.

Refugiados por questões de segurança – São aqueles que são obrigados a deixar sua nação porque estão sofrendo algum tipo de perseguição, seja política ou religiosa e que correm risco de morte. Dentre muitos exemplos, um é especialmente importante:
“Depois que os visitantes foram embora, um anjo do Senhor apareceu num sonho a José e disse: — Levante-se, pegue a criança e a sua mãe e fuja para o Egito. Fiquem lá até eu avisar, pois Herodes está procurando a criança para matá-la. Então José se levantou no meio da noite, pegou a criança e a sua mãe e fugiu para o Egito. E eles ficaram lá até a morte de Herodes. Isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor tinha dito por meio do profeta: “Eu chamei o meu filho, que estava na terra do Egito”.” (Mateus 2.13-15);
É interessante notar que a escolha do Egito pode não ter sido considerada a melhor já que conforme o comentário Atos, “A maior parte da população egípcia, entretanto, era constituída de camponeses, estando entre os mais pobres do império” (volume dois, p.49). Porém, no momento da fuga, este era o caminho mais viável. É Importante entender que o refugiado nestas condições não está em busca de “se dar bem”, mas de proteção, paz e tranquilidade para a família.
O Egito também possuía outro atrativo: era uma das maiores colônias judaicas do império. Estar entre os seus pares é também muito importante para se sentir seguro.

Xenofobia – É o ato discriminatório contra estrangeiros. Dois casos merecem destaque na Bíblia:
“Porém o rei de Edom respondeu: — Nós não vamos deixar que vocês passem pelo nosso país. Se tentarem fazer isso, marcharemos contra vocês e os atacaremos. Então o povo de Israel disse: — Ficaremos na estrada principal e, se nós ou os nossos animais beberem água de vocês, pagaremos o preço dela. Somente queremos passar a pé. O rei de Edom respondeu: — Não. Vocês não passarão! Aí os edomitas vieram com um exército poderoso para atacar o povo de Israel. Assim, os edomitas não deixaram que os israelitas passassem pelo seu país, e por isso os israelitas foram por outro caminho.” (Nm 20.18-21);
Os edomitas com certeza ouviram “histórias” sobre a maneira como Israel saiu do Egito e de como os egípcios ao persegui-los, foram derrotados. Algumas verdadeiras e outras nem tanto, mas o fato é que tinham construído um “pré-conceito” sobre quem era aquela multidão de gente que perambulava pelo deserto.
Quando eu era criança, ouvia histórias sobre os ciganos. Minha avó dizia que quando havia um acampamento deles por perto, só podíamos brincar em frente a nossa casa porque eles “roubavam as crianças”. Recentemente, conversando sobre isso com alguns ciganos, eles me responderam ironicamente: “Roubar crianças para que, se já temos um monte das nossas para sustentar?”. Agora, por causa dos inúmeros casos de terrorismo creditados aos movimentos radicais islâmicos, os episódios de xenofobia contra os refugiados que vieram do oriente médio tem se tornado cada vez mais frequentes, mesmo quando alguns destes não sejam muçulmanos. Os edomitas foram xenofóbicos, não por causa do que o povo de Israel era ou fazia de fato, mas pelo que eles achavam que era, e isso acontece frequentemente com os imigrantes por causa da falta de informação.
O outro caso é:
A ordem era matar todos os judeus num dia só, o dia treze do décimo segundo mês, o mês de adar. Que todos os judeus fossem mortos, sem dó nem piedade: os moços e os velhos, as mulheres e as crianças. E a ordem mandava também que todos os bens dos judeus ficassem para o governo. Em cada província deveria ser feita uma leitura em público dessa ordem, a fim de que, quando chegasse o dia marcado, todos estivessem prontos. O rei deu a ordem, e os mensageiros foram depressa a todas as províncias; e em Susã, a capital, a ordem foi lida em público. O rei e Hamã se assentaram para beber, enquanto a confusão se espalhava pela cidade. (Ester 3.8-15);
A motivação de Hamã era a vingança, mas não por algo que alguém lhe tivesse feito pessoalmente ou a alguém de sua família, mas por causa de fatos históricos entre Israelitas e os Amalequitas e por causa da forma que Hamã interpretava tais fatos.
É interessante notar, por exemplo, que na tensão entre Israelitas e Palestinos hoje, ambos os lados acreditam ter cem por cento de razão em suas reinvindicações porque cada uma das partes tem a sua interpretação da história. Mais próximo da nossa realidade, é o fato de que mesmo após quase cento e cinquenta anos, a tensão entre brasileiros e paraguaios ainda existe, mesmo que de maneira velada.
Quando morava no interior de São Paulo, na época do confronto no Golfo Pérsico, algumas famílias iraquianas refugiadas foram instaladas na cidade pelo Conare, e isso causou certa tensão entre os moradores e muitos diziam que não os queriam ali. Apesar de carregarem sua história nacional, sua bandeira e seus traços genéticos, na maioria das vezes os refugiados são apenas pessoas procurando ajuda e proteção e não podem receber tais julgamentos. Infelizmente, porém, esse tem sido o principal motivo de xenofobia através da história.
Concluindo este tópico, citamos o Padre Fernando Vega, sobre a importância dada à proteção ao refugiado, principalmente no Antigo Testamento:
“... ao longo de sua história a instituição do refúgio ocupou um lugar muito importante. Esta instituição é patrimônio também de outros povos, porém à luz da Aliança e do ensinamento profético, o refúgio, no povo eleito, alcançou conotações e motivações religiosas muito importantes: trata-se de proteger o justo, vítima de perseguição, com ameaça à sua vida e dar-lhe a oportunidade de expor sua causa e defender-se. O fato de que as cidades de refugio estejam vinculadas às cidades dos santuários, faz com que Yavé se converta em garantia e patrocinador do refúgio. Deus mesmo se converte no único refúgio seguro e inviolável”. (in Milesi, 2003)

O Evangelho e os refugiados.

A pregação da cruz aos refugiados não deve ter apenas o proselitismo como motivação, mas que principalmente o poder transformador do evangelho integral os alcance. A grande diferença é que existe uma maravilhosa ponte para alcança-los:
“Todos esses morreram cheios de fé. Não receberam as coisas que Deus tinha prometido, mas as viram de longe e ficaram contentes por causa delas. E declararam que eram estrangeiros e refugiados, de passagem por este mundo.” Hebreus 11.13;
“Queridos amigos, lembrem que vocês são estrangeiros de passagem por este mundo. Peço, portanto, que evitem as paixões carnais que estão sempre em guerra contra a alma.” 1 Pedro 2.11.

O evangelho oferece uma “pátria” melhor, onde podemos nos refugiar da influência do mundo corrompido. Neste sentido, todos os cristãos são peregrinos e anseiam estar lá um dia. O evangelho também invoca a prerrogativa de que Jesus conhece a situação de refugiado e pode tratar do assunto com autoridade, como destaca Anna Fumagalli:
“Assim ressaltam Flor Maria Rigoni e Gioacchino Campese acerca da morte de Jesus: “Existe outro evento fundamental na vida de Jesus e da história da salvação no qual se manifesta seu ser estrangeiro." Referimo-nos a dois aspectos da morte de Jesus: a) sua morte na cruz, que é a morte dos escravos, dos criminosos e daqueles que não são cidadãos do Império Romano. De alguma forma a crucifixão apresenta-nos Jesus como estrangeiro em sua própria terra, colonizada naquele tempo pelo poder de Roma; b) o segundo aspecto está descrito no texto da Epístola aos Hebreus que encontramos no início desta seção [Hb 13,12-23], um texto que sustenta que também no lugar de sua crucifixão Jesus é estrangeiro. Na verdade, Jesus morre fora da cidade, dos muros de Jerusalém, que era a cidade santa de todos os judeus”.” (Fumagalli, 2012)
Os refugiados e exilados ocupavam um lugar especial nas preocupações de Jesus assim como todos os oprimidos e necessitados. Verificamos isto nas diversas ocasiões em que o Mestre se relaciona com estrangeiros. Apesar da ênfase em sua missão estar voltada para o seu próprio povo, isso não pode ser caracterizado como uma atitude xenofóbica como alguns podem supor ao olhar textos como o da mulher siro-fenícia (Marcos 7.26). A mensagem de Cristo não era uma mensagem para os Judeus somente, mas para todos os povos como Ele mesmo destaca em Mateus 28.19 e 20 e dá o exemplo no encontro com a mulher Samaritana em João capítulo 4. Anna Fumagalli também destaca este tópico:
“...pensemos em suas palavras no banquete escatológico (ver Mt 8,11-12) e o seu apreço em relação às figuras do passado, como a viúva de Sarepta e Naamã, o sírio (ver Lc 4,25-27), a rainha do Sul e os habitantes de Nínive (ver Mt 12,41-42; Lc 11,31-32). A mesma abertura é-nos confirmada pela simplicidade e coragem com que Jesus, encontrando estrangeiros, rompe com suas próprias coordenadas culturais e, superando iniciais resistências, deixa-se envolver. A lembrança dessa abertura de Jesus será decisiva para as primeiras comunidades cristãs e seu comportamento com relação aos judeus.” (Fumagalli, 2012)
A grande questão, é que o Evangelho tem respostas mais do que adequadas para atender aos anseios de quem está em situação de refúgio e exílio, e a igreja como praticante do Evangelho não somente pode como deve voltar suas atenções para os tais. O Padre Fernando Vega destaca que:
“Também em nossos dias, que bom será para tantos deslocados, refugiados e perseguidos encontrarem países irmãos que lhe estendam a mão, amigos que os acolham, instituições que os protejam e defendam. Não obstante, nada poderá substituir a fé e confiança em Deus que deverá professar o refugiado, submetido a tantas limitações e precariedades, distante de sua terra e de seus familiares, que, talvez, estejam em perigo, submetidos ás incertezas do presente e do futuro, desenraizado, até conseguir estabelecer-se em outra terra. O tema que acabamos de descrever pede à Igreja que se converta em lugar de refúgio e acolhida para todos eles, sendo assim, Sacramento do próprio Deus e de Jesus, acolhendo o próprio Jesus e o mesmo Deus”. (in Milesi, 2003)
Finalizando, citamos o que o(a) escritor(a) da carta aos Hebreus afirma:
“Porque neste mundo não temos nenhuma cidade que dure para sempre; pelo contrário, procuramos a cidade que virá depois. Por isso, por meio de Jesus Cristo, ofereçamos sempre louvor a Deus. Esse louvor é o sacrifício que apresentamos, a oferta que é dada por lábios que confessam a sua fé nele. Não deixem de fazer o bem e de ajudar uns aos outros, pois são esses os sacrifícios que agradam a Deus. Obedeçam aos seus líderes e sigam as suas ordens, pois eles cuidam sempre das necessidades espirituais de vocês porque sabem que vão prestar contas disso a Deus. Se vocês obedecerem, eles farão o trabalho com alegria; mas, se vocês não obedecerem, eles trabalharão com tristeza, e isso não ajudará vocês em nada. Continuem a orar por nós. Temos certeza de que a nossa consciência está limpa, pois sempre queremos fazer o que é correto. E peço a vocês, de modo todo especial, que orem para que Deus me mande de volta a vocês o mais depressa possível (Hebreus 13.14-19).

Ajudando aos refugiados e exilados.

Encerrando esta reflexão, citamos Washington Araújo (in Milesi, 2003), que nos apresenta os seguintes desafios que estão diante dos refugiados: o de ser aceito, de alcançar a cidadania e de manter suas crenças e cultura. É claro que, as necessidades materiais e de suprimento das necessidades fisiológicas são primárias, mas não são as únicas. Com base nestas necessidades é que eu gostaria de tratar sobre a importância de uma pastoral atuante nesta área e a maneira como podemos ajuda-los:
   Desafio de ser aceito: O refugiado na maioria das vezes não domina os códigos de comunicação e os códigos culturais do lugar onde se instala.  Isso cria dificuldades nas mais cotidianas situações e isolamento ao grupo que acaba em muitos casos, sendo vítima de xenofobia. Pessoas com problemas de aceitação como é o caso de alguns refugiados, também estão muito vulneráveis emocionalmente, e precisam de aconselhamento e apoio.
   O desafio de alcançar a cidadania: possuir documentação pessoal para que seja possível usufruir de direitos e deveres junto ao estado e não viver na margem da sociedade. O refugiado sofre por não ser atendido em uma das necessidades primárias de todo ser humano: ser aceito na comunidade e fazer parte de sua dinâmica. O apoio da pastoral neste item é o mais prático possível. A igreja deve proporcionar mecanismos de apoio junto aos órgãos governamentais para resolver tais pendências. Outro aspecto a ser abordado é o evitar que o refugiado entre em um estado de comodismo e conformismo, já que nossa cultura incentiva muito as situações de informalidade. Deve se enfatizar que se o refugiado quer ser aceito adequadamente, isso também implica em obrigações que devem ser cumpridas.
   O desafio de manter suas crenças e cultura: Se trata de ter direito a expressão, a preservar sua cultura e de manter seus códigos morais e éticos. Muitos refugiados são vítimas de perseguição religiosa e cultural e como já vimos, muitas vezes tal perseguição parte da própria igreja. O que a pastoral deve entender, é que evangelizar deve ser parte essencial do programa de acolhimento aos refugiados. Porém, isso não significa atacar suas crenças e valores diretamente, mas apresentar o evangelho como a alternativa e solução; isso não se faz através do discurso apenas, mas principalmente através de ações práticas de amor e tolerância. Suas crenças e valores podem inclusive, oferecer diversas “pontes” para a proclamação do evangelho; renunciar o pecado não significa renunciar também toda a sua cultura e história. O ideal inclusive é ensina-los a adorar e servir a Deus através de seus códigos culturais próprios, desde que não sejam contraditórios ao teor do Evangelho.

Conclusão.

A ausência quase que total de material cristão tratando do assunto demonstra a omissão e o desinteresse da igreja em cuidar daqueles que estão excluídos e marginalizados, entre eles, os refugiados. Entre os motivos, provavelmente porque se trata de um público que “dá muito trabalho”: é preciso dedicar tempo e esforço em codificar sua cultura para ajuda-los a codificar a nossa; disponibilidade para atendê-los; paciência e tolerância com as suas diferenças; compaixão pelo necessitado. Somando a tudo isso, vem o fato de que não dão “retorno financeiro” em forma de dízimos volumosos e que a presença do diferente na comunidade incomoda, ou seja, trazem problemas. O fato é que se a igreja não está disposta a ser a agência de Deus para acolher os que precisam de ajuda para resolver seus problemas, ela existe para que?
A igreja tem a obrigação bíblica de prover ao refugiado uma pastoral militante e eficiente, que os apresente a um Evangelho integral, transformador, inclusivo e livre de preconceitos. Talvez, precisamos ser lembrados novamente, assim como o Senhor fazia costumeiramente ao povo de Israel: de que também somos Refugiados.

Clayton de Souza.




Bibliografia:


MILESI, R. Org. Refugiados – realidade e perspectivas. São Paulo: Ed. Loyola, 2003.
NASSER, A.C. De braços abertos – Em busca das criaturas de Deus. Marília: Solidariedade Cristã Ágape, 2005.
MARINUCCI, R. As religiões diante do desafio das migrações e do refúgio. Disponível em: www.migrante.org.br. Acesso em 05 de junho de 2012.
FUMAGALLI, A. Ler a Bíblia no contexto migratório. Ciberteologia – Revista de Teologia e Cultura. Ano VIII, nº. 37, em  http://ciberteologia.paulinas.org.br/ ciberteologia/wp-content/uploads/downloads/2012 /01 /Artigo2.pdf. Acesso em 05 de Junho de 2012
COLLINS, G.R. Aconselhamento Cristão – Edição século 21. São Paulo: Vida Nova, 2004
BRUCE, F.F. “Comentário Bíblico NVI”. São Paulo: Editora Vida, 2008.
WALTON, J.H. Comentário bíblico Atos: Antigo Testamento. Belo Horizonte: Editora Atos, 2003.
KEENER, C.S. Comentário bíblico Atos: Novo Testamento. Belo Horizonte: Editora Atos, 2004.
Sociedade Bíblica do Brasil. (2000; 2005). Nova Tradução na Linguagem de Hoje.

http://portal.mj.gov.br/conare

fonte: http://claytonita.blogspot.com.br/2017/04/refugiados-quem-sao-eles.html
Angela Natel On terça-feira, 18 de abril de 2017 At 17:27


Por Marcos Simas

Fui à pré-estreia do filme “A Cabana”, homônimo do livro que havia lido faz algum tempo. Logo após sair do cinema um amigo que assistiu comigo postou algo sobre o filme em tom elogioso e, de imediato, recebeu reprimendas e alertas de alguns de seus milhares de seguidores no Facebook.

Para mim não foi novidade. Quando o livro saiu, alguns anos atrás, tive que explicar para um monte de pais e mães de minha igreja do que se tratava a obra e porque havia tantos comentários na internet se opondo ao conteúdo do livro supostamente herege.

Sinceramente, ainda me impressiona quando cristãos ficam assustados com conteúdos editoriais desse tipo que são simples estórias e ao mesmo tempo se apavoram com a possibilidade de danos que podem advir de um conteúdo ficcional que fale sobre Deus, Jesus, o Espírito Santo, ou a Trindade.

Deus não precisa de defensores em alerta máximo nas redes sociais, para protegê-lo de ataques hereges que tentam de alguma forma afetar sua imagem e tudo aquilo que os seus acreditam, deixando-o com baixa popularidade. Ou mesmo que “arranhem” sua imagem e atrapalhem o processo de evangelização – se é que ainda nos preocupamos exatamente com isso hoje em dia.

Confesso que também me pergunto se as críticas ao autor da obra (não o conheço pessoalmente e nem tenho contrato ou procuração para defendê-lo) não seriam de fato o resultado de preconceitos? Afinal, o personagem que se refere a Deus é apresentado ali como mulher e negra. O Espírito Santo é uma mulher descendente de asiáticos. E Jesus é um homem comum, frágil e sensível.

O livro “A cabana” é primeiramente uma ficção e não um ensaio, tão pouco uma tese ou história de uma realidade factual. E também não é uma obra de Teologia. É simplesmente uma estória! E, de fato, é uma estória que sinaliza em alguns belos momentos a soberania e a grandeza de Deus, que se fez homem como nós, e que procura mostrar certa leveza em relação a uma Trindade que não conseguimos compreender; afinal, 1+1+1=3 ou 1+1+1=1?

O autor procura desenvolver a estória a partir de alguns elementos muito caros e provocativos ao ser humano moderno. Principalmente aos que se dizem cristãos: dor, sofrimento, maldade, injustiça, perda, pais e filhos, família, criança, um breve momento e tudo pode acontecer a qualquer um de nós. E isso nos toca e apavora a todos, já que queremos ter sempre o controle da vida e da morte em nossas mãos. Mas esses temas já eram de difícil compreensão até mesmo para os antigos personagens bíblicos, incluindo Jó, Davi e os discípulos (Jó 42; Sl 37; João 9).

O filme me fez lembrar de como não entendemos os mistérios de Deus, apesar de tentarmos e de alguns nos prometerem que isso é possível (Rm 11.33-34a). Ao mesmo tempo, me fez lembrar o alto preço que foi pago por Jesus para se tornar como nós, sendo confundido, desvalorizado e injustiçado até a morte mais vergonhosa de sua época – que grande e impressionante amor!

Não é raro perceber hoje nas igrejas cristãs heresias mais perigosas, disseminadas com a seriedade de quem produz teologia, e não ficção. É verdade que são teologias ficciosas, que tentam desviar os cristãos da verdadeira doutrina (2Tm 4.3-4). E há também péssimos testemunhos chegando a todos pela TV ou internet, com práticas e conteúdos muito mais escandalosos do que o livro “A cabana” apresenta, principalmente no que se refere a dinheiro, sexo e poder – essa trilogia do mal, que ultimamente tem envolvido os políticos e poderosos do nosso país, nos dando a sensação de profunda desesperança. E é contra isso que devemos nos posicionar! Isso é realidade e história, e não ficção e estória.

É claro que todos têm o direito de discordar da forma, do conteúdo e dos símbolos religiosos como são utilizados em “A cabana”, assim como em outras obras que tentar abarcar a temática religiosa, principalmente os personagens mais sagrados e caros para a grande maioria dos cristãos. Lembremos de “O código Da Vinci” que questionava a divindade de Jesus e, ao mesmo tempo, falava de supostos sentimentos pouco divinos, ou humanos demais, sobre Maria Madalena.

Devemos ser menos alarmistas e abandonarmos a mania de sermos os “Patrulheiros da fé”, principalmente com a internet e as mídias sociais que são hoje tamanha ferramenta para instigar a agressividade e violência entre pessoas, ainda que religiosas, ou principalmente entre elas.

• Marcos Simas é casado com Alzeli e pai de Pedro e Clara. Trabalha como editor, tendo publicado mais de 400 obras ao longo de mais de 25 anos. 

fonte: http://www.ultimato.com.br/conteudo/a-cabana-apenas-uma-obra-de-ficcao?platform=hootsuite

Angela Natel On domingo, 16 de abril de 2017 At 05:32
Literistorias: Papo entre amigos - sobre um fragmento de Lucas: Esses tempos pascais me remetem a uma dupla de que gosto muito nos evangelhos, trata-se das irmãs Marta e Maria. Lá estão elas no Evangelho...
Angela Natel On sexta-feira, 14 de abril de 2017 At 08:57
Há dois mil anos, o poder religioso entregava Cristo ao poder político para ele ser crucificado.
Movidos por inveja, pastores e teólogos o tornaram prisioneiro político. Usaram as redes sociais, congressos, pregações, para manipular a opinião pública, levando-a a preferir a soltura de Barrabás à libertação de Cristo.
Religião é um perigo. Nunca a perversidade é mais acintosa, fanática, desinibida, determinada, do que quando praticada em nome da divindade.
Como evitar que a igreja o transforme num respeitável, desumano e insuportável fariseu, capaz de matar Cristo?
1. Jamais acredite que você e seus amigos são detentores do monopólio da verdade. Vocês podem estar vivendo a experiência de um alimentar a loucura do outro. Há evidência de que vocês representam hoje o estágio mais avançado do desenvolvimento intelectual do cristianismo? Qual o impacto da sua práxis e produção teológica na cultura e política nacionais?
2. Ouça os diferentes. Abra espaço para conhecer o pensamento daqueles que fazem contraponto às suas ideias. Na Bíblia, até o Diabo é encontrado dizendo a verdade.
3. Não confunda a Bíblia com a sua interpretação da Bíblia. Não se deixe cooptar ideologicamente por quem quer que seja. Isso pode levá-lo a botar na boca de Deus o que Deus jamais falou.
4. Quem mora com você o tem como doce, amável, leal? Sua vida é coerente? Ao voltar para casa após um dia de trabalho, seus filhos e cônjuge o recebem com alegria?
5. Sua teologia o tem levado à compaixão pelo pobre, enfermo, enlutado e sem Cristo? Religião pode transformar homens em andróides. Cuidado quando sua teologia torna seus olhamos secos e seus joelhos impossíveis de ser dobrados. Lembre-se que você pode ser ortodoxo e morto. Crer como os demônios creem.
Que nesta Páscoa nos lembremos do Cristo cuja vida tornou-se insuportável para a religião e que por nós morreu para nos salvar desse mundo cuja treva se faz presente dentro do templo.
Antônio Carlos Costa

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Angela Natel On quarta-feira, 12 de abril de 2017 At 09:58
Hermes C. Fernandes: Páscoa: Travessia e Travessuras da Humanidade: Por Hermes C. Fernandes A Páscoa é celebrada por duas das principais religiões monoteístas do mundo, a saber, o judaísmo e o cri...
Angela Natel On sexta-feira, 7 de abril de 2017 At 06:50
Hermes C. Fernandes: O que a Bíblia diz sobre o armamento da população?...: Por Hermes C. Fernandes Seria a Bíblia favorável ao armamento da população? E o que diria Jesus acerca disso? Dar ao cidadão co...
Angela Natel On sexta-feira, 3 de março de 2017 At 04:29

Diz C.S. Lewis que o "Coisa Ruim" nunca manda um pecado só. Ele sempre envia dois, que correspondem a extremos opostos para os quais ele quer remeter os cristãos, privando-os assim da simetria de caráter, ideias e sentimentos.
Qual o extremo oposto do mal que você e eu julgamos combater? Será que você e eu não nos deixamos enredar por ele?
Que medidas profiláticas, portanto, poderiam ser tomadas para evitarmos essa cooptação maligna e sutil? Sugiro, entre muitas, pelo menos cinco:
1. Procure conhecer bem o ponto de vista daqueles de quem você diverge. Antes de falar, responda: o que li sobre essa corrente de pensamento da qual divirjo?
2. Tenha contato com gente diferente daquelas que fazem parte do seu grupo de amizade. É pouco provável que você e seus amigos representem hoje o estágio intelectual mais avançado do cristianismo.
3. Pense na possibilidade de você estar enganado. É da natureza humana o partidarismo, o radicalismo, a unilateralidade. Você é ou não é filho de Adão?
4. Avalie quais temores, interesses pessoais e preconceitos o fazem adotar o ponto de vista que adota. Para quem você trabalha? Teme perder dinheiro, fama, aceitação?
5. Examine suas relações do passado a fim de saber se uma experiência amarga com alguém o fez odiar toda espécie de pensamento associado a essa mesma pessoa. Foi ignorado por ela? Ela o prejudicou? O traiu?
Acima de tudo, procure imitar a Cristo, que não fechou nem com os saduceus, nem com os fariseus, nem com os zelotes, nem com os essênios.
O dia que você passar a ser compreendido pelos homens, e pessoas, por motivos justos, passarem a chamá-lo de "progressista" ou "conservador", há muito você já terá deixado de se comportar como servo de Cristo; e isso, para a alegria do inferno.
Antonio Carlos Costa
fonte: https://www.facebook.com/profile.php?id=100009805770419&hc_ref=NEWSFEED&fref=nf
Angela Natel On quinta-feira, 2 de março de 2017 At 04:30
Hermes C. Fernandes: Lambuzados pela graça: Por Hermes C. Fernandes Saul já  havia sido reprovado por Deus. Seu reino estava com os dias contados. Tudo porque se atreveu a ex...
Angela Natel On segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017 At 05:57
Por Hermes C. Fernandes
Karl Marx, o idealizador do comunismo, sugeriu que a história deveria ser entendida sob o prisma da luta entre classes. Desde os primórdios da civilização sempre houve conflito entre etnias, religiões, cosmovisões diferentes e classes sociais. Os que vencem consideram-se superiores aos vencidos, e, portanto, no direito de dominá-los. Parece-me que Marx foi preciso em seu diagnóstico, todavia, não sei se poderia dizer o mesmo acerca do remédio prescrito por alguns dos seus mais aguerridos seguidores, dado seus conhecidos e indesejáveis efeitos colaterais.
De onde provem a hierarquização social? Seria o plano original do Criador que os homens se arrogassem o direito de exercer domínio sobre outros? Apesar de parecer-me óbvio que nada ocorre sem a sua devida chancela, atrevo-me a crer que isso não constava do plano original de Deus.
O relato inicial de Gênesis dá conta de que “criou Deus o homem à sua imagem (...) homem e mulher os criou” (Gn.1:27). Não há qualquer indício de que houvesse alguma hierarquia entre eles. Ambos foram criados à imagem e semelhança de Deus.
No segundo relato, lemos que, depois de dar nome aos bichos, o homem sentiu-se só, pois não encontrara alguém que lhe fosse compatível. “Então o SENHOR Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu; e tomou uma das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar; e da costela que o SENHOR Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão” (Gn. 2:20-25). Mais uma vez não encontramos menção à posição do homem como superior à mulher.
Ao encontrar-se com sua companheira pela primeira vez, Adão disse: “Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada. Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne. E ambos estavam nus, o homem e a sua mulher; e não se envergonhavam”(Gn. 2:20-25).
A expressão “carne da minha carne” pode indicar a malha social que começava a ser tecida. Cada novo membro da família humana deveria ser um novo ponto desta tecelagem. Já a expressão “osso dos meus ossos” pode apontar para a estrutura por trás desta malha, dando-lhe sustentação. Sem os ossos, o corpo se dissolveria. Assim também, sem um esqueleto social formado de instituições fortes, a sociedade se dissolve. A primeira destas instituições é, sem dúvida, a família. Não fosse a queda, talvez esta fosse a única. Porém, a queda produziu novas demandas, dentre elas, a de um governo.
Homem e mulher deveriam ser parceiros, os tecelões da sociedade. Porém, a queda interferiu na harmonia original, produzindo conflito de interesses. O pronome “nós” foi substituído pelo “eu” e “ele”. O “serão ambos uma só carne” deu lugar ao “cada um por si”.
Tão logo foi tentada pela serpente intrusa, a mulher estendeu a mão em direção à árvore vetada por Deus, “tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela” (Gn. 3:6).
Repare na ordem dos fatos: ela primeiro toma para si e come, só então oferece ao seu marido. Primeiro, eu. Depois, você. Este gesto prenunciou a queda. Foi o salto que os lançou despenhadeiro a baixo. Eva usurpou a primazia ao servir-se a si mesma.
O evento chamado pelos teólogos de Queda não apenas alienou a humanidade de Deus, mas também comprometeu seriamente as relações sociais. Ora, quando um osso se fratura, faz-se necessário o uso de uma tala até que ele seja regenerado. O que deveria sustentar o corpo, agora tem que ser sustentado por um elemento estranho ao corpo. Às vezes, tem-se que usar muletas para evitar que o corpo se apoie sobre a perna fraturada.
Somente a partir da Queda, Deus estabelece uma hierarquia entre homem e mulher, que serviria de base para toda estrutura hierárquica que viria depois.
Observe a sentença proferida por Deus:
“E à mulher disse: Multiplicarei grandemente a tua dor, e a tua conceição; com dor darás à luz filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.” Gênesis 3:16
A relação antes harmoniosa agora precisaria ser engessada até que se recuperasse plenamente.
Milênios se passaram desde então, quando a Cura chegou ao mundo dos homens. Todavia, Jesus teria que inserir-Se no meio do conflito a fim de hastear a bandeira da paz.
Tempos atrás sofri uma queda do púlpito da igreja. Ao descer dele para atender a alguém que solicitava minha atenção, apoiei-me num pedestal, pisei em falso e caí. Levado para o hospital, soube que precisaria imobilizar meu pé direito com uma bota ortopédica e que, depois de alguns dias de “perna pro ar”, talvez necessitasse de fisioterapia. Já se passaram dois meses e meu pé ainda dói. Caminho normalmente, porém, às vezes, quando ele incha, volto a mancar. O médico já me advertira que a recuperação seria lenta.
Enquanto meu pé estava imobilizado, tinha que saltar apoiando-me no pé esquerdo, como se fosse um saci-pererê. Resultado: o pé esquerdo começou a doer mais do que o direito. Todo o peso do corpo agora era apoiado nele, sobrecarregando-o.
Depois da Queda do homem, Deus atou-o com a tala da Lei moral e engessou-o com a Lei cerimonial. Cristo veio e removeu o gesso. Todavia, ainda nos resta um tempo para que recobremos o vigor original de nossas relações. A igreja seria, por assim dizer, a fisioterapeuta do mundo. Por isso, o Novo Testamento corrobora com a ideia de que a relação conjugal deve ser encabeçada pelo homem:
“Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo. De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos. Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela.” Efésios 5:22-25
A ferida desinflamou, mas não cicatrizou ainda. O gesso e a tala foram removidos, mas o paciente não consegue pisar firmemente. Ele ainda manca. Por isso, um dos pés terá que ser sobrecarregado por mais um tempo. Todavia, Cristo Se oferece como um novo modelo de primazia para o homem. Em vez de simplesmente dominá-la, o homem deve amá-la e se entregar por sua mulher, assim como Cristo amou a Sua igreja, entregando-Se por ela. O que seria mais difícil, sujeitar-se a outrem ou entregar-se para morrer por ele? Ademais, sujeitar-se ao outro não é prerrogativa somente da mulher. No verso anterior, Paulo diz que devemos todos sujeitar-nos “uns aos outros no temor de Deus” (Ef.5:21).
Em Cristo, o conflito entre classes termina. Quem antes se arrogava o direito de dominar os demais, agora é desafiado a apascentar o rebanho de Deus, “não por força, mas espontaneamente segundo a vontade de Deus; nem por torpe ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores sobre os que vos foram confiados, mas servindo de exemplo ao rebanho” (1 Pe.5:2-3). Por isso que Paulo, apesar da autoridade que tinha, não se estribava nela, mas apelava à consciência das pessoas. Escrevendo a Filemon, ele diz: “Ainda que tenha em Cristo grande confiança para te mandar o que te convém, todavia peço-te antes por amor” (Filemom 1:8-9).
Em Cristo, “não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher” (Gl.3:28). A igreja é, por assim dizer, um ensaio de como as relações sociais se darão na sociedade definitiva, quando Cristo “houver destruído todo domínio, e toda autoridade e todo poder” (1 Co.15:24), e Deus for “tudo em todos” (v.28).
A proposta do reino não é hierarquização, mas sujeição mútua em amor. Assim como os ossos devem suportar o peso dos demais alternadamente, dependendo da posição em que o corpo estiver, assim devemos suportar uns aos outros em amor (Cl.3:13). Suportar aqui não tem o significado de tolerar mas de ser suporte, isto é, aquilo que dá sustentação.
Para tal, devemos estar dispostos a servir uns aos outros, dando-lhes sempre primazia. Não se trata de ser seletivo, de escolher a quem se deve servir, mas de servir igualmente a todos. Não se deve usar a liberdade concedida pela graça como pretexto para uma vida autocentrada. Servir ao outro é bem diferente de servir-se do outro. Considere o que Paulo diz sobre isso:
“Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não useis então da liberdade para dar ocasião à carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor.” Gálatas 5:13
Para o apóstolo, o cristão carnal é aquele que se nega a sujeitar-se aos demais , servindo-os em amor. Ele mesmo admite que “sendo livre para com todos”, fez-se “servo de todos para ganhar ainda mais” (1 Co.9:19). Da perspectiva do mundo, quanto mais a gente se impõe aos demais, mais ganhamos. Porém, o evangelho subverte esta ordem, de sorte que, quanto mais servimos, tanto mais ganhamos.
Há, porém, uma diferença entre a submissão cega e a submissão consciente. Na clássica passagem em que fala das autoridades estabelecidas por Deus, Paulo diz que não devemos submeter-nos meramente por medo de eventuais sanções, mas por consciência (Rm.13:5). Submissão cega não passa de subserviência, e, esta, por sua vez, ora é motivada por medo, ora por interesse. Já a submissão requerida pelo evangelho é motivada exclusivamente por amor.
E será este mesmo amor que nos fará preferir-nos “em honra uns aos outros” (Rm.12:10). Se alguém tiver que ser honrado, que seja o outro, não nós. Em vez de enciumados, sentimo-nos realizados diante da honra recebida pelo nosso irmão, afinal de contas, somos membros uns dos outros, como nos ensinam as epístolas paulinas. Na mesma passagem em que fala da sujeição mútua entre os cristãos, Paulo diz que além de membros do corpo de Cristo, também somos membros “da sua carne, e dos seus ossos” (Ef.5:30). O que deve nos unir não são apenas nossas ações (carne), mas também nossas motivações (ossos). Para Deus, o que não se vê é ainda mais importante do que o que se vê.
O que nos conecta uns aos outros não são os papéis sociais que desempenhamos, e sim nosso DNA espiritual. Somos todos “imagem e semelhança” de Deus.
É claro que somos diferentes. Temos papéis distintos. Porém, iguais em dignidade. Mesmo “os membros do corpo que parecem ser os mais fracos são necessários; e os que reputamos serem menos honrosos no corpo, a esses honramos muito mais; e aos que em nós são menos decorosos damos muito mais honra. Porque os que em nós são mais nobres não têm necessidade disso, mas Deus assim formou o corpo, dando muito mais honra ao que tinha falta dela” (1 Co.12:22-26). É desta maneira o tecido social é devidamente calibrado. Os mais fracos devem ser os mais honrados. Já os “nobres” dispensam tais honrarias. É como alguém que tem uma perna mais curta que a outra. A perna normal não precisa de um sapato com salto maior, mas a menor sim.
Ainda mais importante que a honra concedida a uns em detrimento de outros é o cuidado recíproco. Paulo insiste em que os membros devem ter “igual cuidado uns dos outros. De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele” (1 Co.12:22-26). Todo cuidado é uma expressão de amor. Só cuida quem se importa, e só se importa com quem se ama. Assim, se alguém for honrado em nosso lugar, sentiremos como se nós mesmos fôssemos honrados. E se alguém estiver sofrendo, nos solidarizaremos com a sua dor.
Honrar é dar a primazia ao outro, ceder a vez, estimar o interesse alheio superior aos nossos. Isso é ter “os mesmos sentimentos que houve em Cristo Jesus”. É atender à admoestação apostólica de que “cada um considere os outros superiores a si mesmo”, não atentando “cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros” (Fp.2:3-4). É fácil? Certamente que não. Mas é o que o evangelho demanda de nós. Os últimos terão que ser os primeiros. E para tal, os primeiros terão que ser os últimos.
Será assim que subverteremos a ordem vigente no mundo desde a Queda de nossos primeiros ancestrais. Mesmo antes de vendê-lo por trinta moedas de prata, traindo assim o Seu mestre, Judas traiu a proposta do reino de Deus.
Os discípulos já haviam sido advertidos de que dentre eles havia um traidor. Todos queriam um sinal que o identificasse. Engana-se quem imagina que o traidor fora reconhecido por um beijo. O beijo identificou o traído, não o traidor.
Dois sinais identificariam quem O trairia:
“O que põe comigo a mão no prato, esse me há de trair.” Mateus 26:23
“O que come o pão comigo, levantou contra mim o seu calcanhar.” João 13:18
Ambos os sinais seriam vistos na mesma ocasião, a saber, na última ceia de Jesus com Seus discípulos. E o que eles revelam?
Meter a mão no prato é servir-se a si mesmo, fazendo exatamente o que Eva fez no paraíso. Enquanto Jesus partia o pão e servia aos demais, Judas servia a si mesmo. Partir o pão era tarefa do servo, não de quem estava sentado à cabeceira da mesa em posição de honra.
Nesta mesma ocasião, os discípulos discutiam quem deveria ser o maior entre eles. Jesus aproveitou a oportunidade para dar-lhes uma lição que jamais se esqueceriam:
“E ele lhes disse: Os reis dos gentios dominam sobre eles, e os que têm autoridade sobre eles são chamados benfeitores. Mas não sereis vós assim; antes o maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve. Pois qual é maior: quem está à mesa, ou quem serve? Porventura não é quem está à mesa? Eu, porém, entre vós sou como aquele que serve.” Lucas 22:21-27
Só deve ser honrado quem não faz a menor questão da honra, e sim, de ser vir. É desta maneira que Deus subverte a ordem. O maior deve ser o menor.
Jesus não limitou-se a dar-lhes um sermão. Mesmo sabendo que “já era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai”, Ele insistiu em amá-los até o fim. Acabada a ceia, Jesus levantou-se, “tirou as vestes, e, tomando uma toalha, cingiu-se. Depois deitou água numa bacia, e começou a lavar os pés aos discípulos, e a enxugar com a toalha com que estava cingido” (João 13:1-5). Há um detalhe aqui que precisamos focar. Quando o primeiro casal rebelou-se contra Deus, a primeira percepção que tiveram foi que estavam nus. Dentro do simbolismo bíblico, nudez representa desonra, uma metáfora que aponta para a exposição de nossa fragilidade. Eles, imediatamente, trataram de coser folhas de figueira para cobrir sua vergonha. Jesus toma a direção oposta. Ele Se expõe perante o olhar censor dos Seus discípulos. Sua genitália é coberta pela toalha, porém, cada vez que enxuga os pés dos Seus discípulos, fica exposta. Porém, Ele parece não se importar. Ademais, horas depois Ele seria crucificado totalmente nu, exposto a toda população de Jerusalém.
Quem teria maior autoridade do que Ele? O texto faz questão de frisar que Ele sabia “que o Pai tinha depositado nas suas mãos todas as coisas”. Mesmo assim, sem o menor recato, sem falsos escrúpulos, Ele se desnuda e lava os pés dos Seus discípulos como se fosse um mero serviçal.
Tal atitude me remete ao episódio em que Davi encabeçava a procissão que trazia de volta a Arca da Aliança a Jerusalém. Inadvertidamente, o rei dançava com tanta alegria, que suas partes íntimas ficavam despudoradamente expostas, provocando o ciúme de Mical, sua esposa, que assistia de sua janela. Ao chegar em casa, Davi foi duramente criticado:
“Quão honrado foi o rei de Israel, descobrindo-se hoje aos olhos das servas de seus servos, como sem pudor se descobre um qualquer.” 2 Samuel 6:20b
Pelo que ele respondeu:
“Perante o Senhor me tenho alegrado. Ainda mais do que isso me rebaixarei e me humilharei aos meus olhos. Quanto às servas, de quem falaste, delas serei honrado.” vv 21b-22
Só Deus pode avaliar a motivação de alguém. Para Mical, Davi estava se desgastando ante os olhos das suas servas. Porém, quanto mais se humilhava, expondo-se em sua alegria saltitante e ingênua, mais honrado era por todo o seu povo.
Enquanto lavava os pés dos seus discípulos, dois deles tiveram comportamento totalmente inverso. Pedro sentiu-se constrangido e tentou dissuadir Jesus de prosseguir. Ao chegar a vez de Judas, este levantou o calcanhar para Jesus, como quem quisesse dizer: Se é para lavar, trate de lavar direitinho (Jo.13:18).
Se o primeiro sinal do traidor foi servir a si mesmo, o segundo sinal foi abusar do serviço do outro. Ambas são posturas que contrariam o espírito do evangelho e a causa do reino de Deus. Devemos, antes, deixar-nos constranger pela disposição demonstrada por outros em nos servir, e, jamais abusar do seu amor.
Ao terminar o serviço, Jesus deve ter-lhes fitado os olhos quando disse: “Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou. Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as fizerdes” (João 13:14-18). Saber nunca foi o suficiente. Saber, incha. Mas o amor, edifica (1 Co.8:1). Portanto, devemos despir-nos de nossa vaidade e servir àqueles a quem o Senhor confiou aos nossos cuidados, honrando-os, amando-os até o fim.

Fonte: https://www.facebook.com/hermes.c.fernandes/posts/10211051480578844

Liberdade de Expressão


É importante esclarecer que este BLOG, em plena vigência do Estado Democrático de Direito, exercita-se das prerrogativas constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, da Constituição Federal. Relembrando os referidos textos constitucionais, verifica-se:
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